Carta II – Quando sonhei que escrevia sonetos a Orfeu
P*,
Perdemos o contato, eu sei. Não que isso pudesse ser evitado, pois você está aí cada vez mais perto de Buenos Aires — ainda ambienta teus contos nos quartos poucos iluminados com vista para a Plaza de Mayo? Sabe que sempre invejei um pouco sua disposição para a escrita, apesar de achar suas idéias sempre batidas e baseadas na lei do mínimo esforço?
Depois de tantos meses resolvi ler aquele livro da tal moça de nome bonito que fez muito sucesso por aí, a Clarah Averbuck. No bilhete que me deixou lembro de você ter dito que havia notado “força literária” no texto dela. Sou obrigado a concordar, sobretudo por conta do vigor com que a menina despeja palavras e mais palavras em períodos fortes, intensos e cheios rebeldia (ainda que remediada). Porém um exame mais apurado me revelou que a dita “força” era oriunda de esteróides anabolizantes do caráter construído em torno dessa nova geração de autores da Internet, tão maior que os próprios personagens (o que seria isso? uma falsa exposição aguda?). Nós temos esse problema: queremos ser como Bernhardts e Cheevers, mas na contra-mão. Você vai ficar puto comigo, mas isso de você se imolar e viver afirmando por aí que não sabe porque ainda continua, é (como diria o pai do Calvin) to help building character.
Inclusive, por sua causa cunhei o termo bukette. Andei até fazendo uns textos dando uma sacaneada, mas como te disse, parei. Por ora, só leio. Ah, e ainda sobre a moça (ela é bonita? procurei umas fotos no google mas não vi nenhuma honesta), terminei o livro com a sensação de ter assistido a um clipe da Avril Lavigne. É mais ou menos aquilo que te falei sobre o seu livro que ia sair e não saiu — que no prefácio mencionei literatura cover (e que você acabou rejeitando e dando pra outro cara desse “de Internet” escrever).
No geral não tenho muito a lhe dizer. Queria sair do país (pensei aqui em fazer piada sobre o AI-5 e asilo político no exterior, mas esqueci de seu pai…foi mal), mas largar a mamata de um (rentável) emprego público ainda me breca. Enquanto eu queria saber de produzir isso ainda fazia sentido, pois como diria Flaubert (ou foi Proust?): Para escrever como um revolucionário, você precisa viver como um burguês. Mas agora que não quero mais saber dessa bravata de ser artista, talvez consiga abandonar minha vidinha de souvenir. O primeiro passo eu até dei (já que tenho que ficar por aqui mesmo), que foi comprar uma casa com terreno enorme. Lá vou construir um canil e criar meus cães. Na primeira ninhada eu te mando um filhote. Até lá, me diga: como vão as coisas por aí? (ou me deixe adivinhar: uma merda?)
Fred
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- Published:
- 8 08UTC Outubro 8 08UTC 2008 / 0:37
- Categoria:
- Cartas
- Tags:
- Amigos, Cartas, nova-literatura
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