Primeiras ninhadas
Estamos em 18 de Outubro do ano de 2001. Ao invés de viajar pelo cosmos, como sugeriram Clarke e Kubrick, eu contrariava meu sonho de criança e, aos vinte e poucos, contava as estrelas do céu sentado no meio-fio da esquina da vila onde morava. Não navegava uma Discovery; dirigia um Gol 99. Em minha companhia não havia nenhum David Bowman, mas Roberto “Bob Panga”. Ao invés de pílulas de proteína ou, seja lá o que come um astronauta: uma guampa de Tereré e uma garrafa de água gelada. O líquido insosso era a representação máxima daquela geração que crescera ali no subúrbio e na grande “maravilhosa” capital. O mesmo líquido insosso que eu só tragava por mero exercício de socialização.
Como disse, olhava as estrelas, e me formigava as narinas o ranço da apatia e alienação daqueles que estariam realizando nossa odisséia espacial. Mas que tudo fosse pras picas. Ali, onde os cães eram mais felizes do que os das dondocas da Vieira Souto, alienação era um sinal de sensatez. Eu só não conseguia entender o porquê do mesmo fenômeno também em nossa capital maravilhosa.
“Por aqui falta uma praia, né?”, Panga me perguntava.
Hoje vejo que no fundo tudo não passava de bairrismo por conta de um certo recalque geográfico.
Larguei as estrelas e as digressões antropológicas. Queria observar o andar das mulheres. Bonitas ou feias, sempre me atraí pelas de andar manso e leve. Volta e meia um rabo grande ou um quadril dançante me chamava a atenção, mas quem quiser explicação que vá ler Darwin. Àquela noite me considerava especialmente romântico, de modo que varria as calçadas por alguma dona que me valesse o cortejo. Mas por mais que encontrasse um andar bacana daqui e outro acolá, tive que terminar minha noite na companhia de Bob Panga.
“Panga, o homem pisou na Lua?”, perguntei.
“Só, véi”. (Esqueci de dizer, mas Panga é do Mato Grosso do Sul, então o “só”, o “véi” e o Tereré eram, declaradamente, suas armas pra se destacar com “as muiézinha” da cidade.)
“O que será que tem lá?”
“Sei não, véi. Mas ó: tá ligado que o céu lá é preto né?”
No meio do papo resolvemos pegar o Golzinho. Panga se distraía com o bater de metais e sirenes de seu CD de música eletrônica, enquanto minha distração era avançar os sinais vermelhos e fechar os olhos nos cruzamentos. Passamos pelo trailer onde o pessoal se reunia pra comer alguma coisa, mas nenhum conhecido estava por lá. O vento frio expulsava as pessoas para dentro de suas casas, o que dava ao nosso passeio noturno um ar de diligência. Nos sentíamos como verdadeiros patrulheiros da cidade (como se o jogo do bicho não tivesse sua própria).
Decidi sair da área mais residencial, (por lá, falar em “bairros” tinha um quê de megalomania), em direção a um dos campos de futebol onde jogava as peladas nos finais de semana. O enorme descampado de saibro estava deserto, só se vendo ao longe a luz de uma portinhola de grades com algumas mesas em volta — era a Boca de Álcool do Russo, como diziam por lá. Se o frio expulsa as pessoas para dentro das suas casas, aquelas que moram na rua buscam abrigo em lugares como esse.
Contornando o campo, reparei que as mesas estavam vazias, algumas cadeiras reviradas e outras ao chão, além do fato de Russo não estar em sua pose habitual — com a barriga sobre o pequeno balcão. Aliviei o pé e o Golzinho morreu. Ao dar a partida novamente, aumentei a potência dos faróis e alguns metros à frente pude ver dois sujeitos se agredindo. Ao lado deles, Russo assistia.
“Bora lá dar uma força pra apartar, véi. De repente o Russo descola uma gelada pra nós.”
Ao sair do carro notei a presença de outros sujeitos que, apesar da situação, não demonstravam qualquer sinal de tensão ou nervosismo. Assistiam calmos ao morador de rua espancar seu vizinho de bancos de praça e marquises. Tão logo este desmaiou, Russo deu meia volta e nos cumprimentou.
“João Maluco é bom de porrada. Tá sempre tomando uma aqui. Quando esse zé ruela aí veio serrar a cachaça dele logo vi que partiria pra mão. Se eu tivesse apostado com os dois ali, teria ganho.”
Sentamos próximos ao balcão onde Russo já apoiava sua imensa barriga. João Maluco sorvia lentamente sua recém-servida pinga. Pensei que ele fosse aproveitar sua evidência para vir com alguma história que envolvesse uma suposta carreira promissora de pugilista militar que foi estragada por alguma dona de seios fartos e ancas largas — ainda tem tanta gente por aí que não se cansou de pensar essas coisas. Mas para minha surpresa soltou uma frase despretenciosa que definiu não só o rumo de Bob Panga e o meu, como de todos os outros infames camaradas lá da vila.
“Quer se dar bem? Bota dinheiro aqui.”, e cerrou os punhos de ossos tão afiados quanto uma picareta.
Na manhã do dia seguinte o Golzinho tinha agora, além de Panga, Boca, Doutor e Xororó. Me sentia o Don King Branco, com direito até a entourage. Russo se comprometeu em contactar João Maluco e possíveis “clientes”. Àquela noite faturamos R$ 600,00 com as apostas. João Maluco arrancou o couro de um coroa gordo que dormia no túnel que ligava os lados da cidade dividida pela linha do trem. Russo vendia mais bebida do que estava acostumado; precisou de um ajudante pra dar conta do tira-gosto pro pessoal. Ao final da terceira semana tínhamos até card com lutas de abertura e evento principal — onde João Maluco sempre era desafiado.
Quando as parciais nas lutas de João Maluco chegaram à casa de 7 pra 1, achamos que era hora de um Number One Contender apropriado. Rodamos a cidade e muncípios vizinhos. A fama de João Maluco era tamanha que ninguém se atrevia.
(Diziam por lá que a população já observava até alguma diminuição na quantidade de moradores de rua ali pelas cercanias, mas nunca acreditei, pois na época eu era possuído por tamanho espírito empreededor que creio que seria capaz de entrar para a política.)
Precisei encher o tanque do Golzinho e rumar até o Largo da Carioca para arrumar alguém disposto a encher o outro de porrada em troca de alguns trocados. É bem verdade que o magricela que arrumamos cairia no primeiro soco de JM, mas Panga afirmava ter tudo sobre controle.
Uma noite que em seu início mais lembrava Thrilla In Manilla, Rumble In The Jungle, Brawl In Montreal, pela atmosfera elétrica antes da peleia, ao final mais se assemelhava às tragédias Chavez-Taylor, Douglas-Tyson, Golota-Bowie. Dois lexotans moídos na caninha do campeão e o magricela do Largo da Carioca era a zebra do ano.
Só então nós infames pudemos desfrutar de um réveillon de patrão em uma casa fodona em Búzios, Panga pode ir à rave que tanto sonhava no Tocantins e meses mais tarde comprar um Ipod, enquanto meu Golzinho ganhou um seguro e um jogo de rodas novo. Contando, ninguém acredita.
No comments yet
Jump to comment form | comments rss [?] | trackback uri [?]