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Eu

Fred da Guia

Um de meus melhores amigos também é escritor. Na verdade se trata de um sujeito de múltiplos talentos. Mas este jovem imberbe sofre da doença dos incautos: sonha demais. Ontem estávamos aqui em casa, eu jogava xadrez comigo mesmo enquanto ele se concentrava em seu bloco de papel e sua caneta preta. Ele tem esses rompantes artísticos, essas epifanias e essa coisa (que o pessoal que freqüenta a Mercearia São Pedro tem) de insight.

Imaginei que estivesse escrevendo algo; psicografando o tal insight com a matéria de algum futuro conto, novela ou romance. Ele escreve bem, esse meu amigo (tem épocas que até bem melhor que eu). Resolvi me concentrar nas linhas do centro do tabuleiro — tinha uma forca de cavalo e torre com a rainha branca — e antes que pudesse conceber a defesa correta de meu próprio ataque, o bloco de papel surge sobre o campo de batalha à frente e revela a minha figura no mesmo preto e branco dos dois exércitos que duelavam além dos limites de minha cabeça.

Com um chapéu à la Hunter S. Thompson e um cigarro na boca, lá estava eu.

“Dava pra ficar mais parecido, mas tu não parou quieto na frente desse jogo aí”, ele disse.

Concordei que minha figura é um tanto diferente daquela que está no papel, sobretudo por conta do cigarro na boca, já que venho tentando parar de fumar desde o episódio com Karla Adriana e James Dean, mas não deixei de apreciar o gesto e me sentir aliviado — poderia ser muito pior.

“Se você troca o cigarro por um cachimbo, pessoas de olhos menos atentos achariam que sou o Claudinei Vieira.”

Ele riu e certamente dentro de sua cabeça chegou a pensar em fazer essa sacanagem comigo, mas a culpa no cartório não deixou. Não fosse por ele, em seu período de aspirante a escritor em revistinha literária online, freqüentando recital daqui, encontro dali, leitura acolá e outras bagatelas dessas que ele tanto levava a sério (chego até a desconfiar que sua participação nesses grupinhos se dava somente por conta de seus outros talentos que não o literário) eu não teria tido o desprazer de trombar com essa turma.

Karla Adriana diria que sou mais bonito que o fomentador cultural que mencionei acima. Imagino que L. também (desta pretendo falar num outro momento). Para exorcizar, exclamei:

“Que o Pavão Cabeçudo vá pra longe daqui!”

Meu amigo chegou a ensaiar algo sobre estar participando de um novo “projeto”, uma coisa menor, com um pessoal mais sério, outra proposta, mas na TV Yelena Isinbayeva voava para mais perto de Zeus e eu largava essa baboseira toda de literatura para encarnar Menelau.

(OBS: Adotei o desenho de meu amigo para ser meu avatar aqui no blog.)


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